Outro dia, enquanto eperava uma amiga do lado de fora da faculdade, iniciei uma conversa bastante interessante com um flanelinha que vive por ali guardando os carros, ganhando a confiança dos moradores e sobretudo, ganhando seu pão de cada dia.Com suas girias bastante peculiares, contava-me sua história de como havia chegado até ali, sobre as diferenças da vida na pista e no morro, sobre as dificuldades de quem chega, sobre o aperto no peito de quem se deixou pra trás.
Chegou ao Rio de Janeiro como quem chega de paraquedas. Não conhecia nada, ninguém e ainda por cima, veio a pé - a pé de São Paulo até o Rio. Oito dias de viagem - ele me disse. Alguns dias se parava para descansar, outros não. No primeiro, andaram 70 quilômetros. Houve quem tivesse desistido, claro: "Saiu de sampa uns nove, ne? mais a rapaziada logo desistiu. Chegou dois comigo. Nunca mais vi eles. Cada um prum lado."
Há três anos, quando chegou aqui, sem trabalho e sem conhecer ninguém, o rapaz dormiu na rua e comeu o pão que o diabo amassou - conta.
Veio parar em Niterói. Juntou com uma moça no 94, comunidade ao lado da faculdade e por ali ficou durante um tempo, juntando um dinheirinho com os carros que guardava.Um belo dia dormiu na rua, pois brigara com sua mulher, e quando acordou só encontrou a roupa do corpo. O resto, o pouco que se tinha, havia sido levado - ou por quem tivesse menos ainda ou por pura malandragem de outros. Não importa. Ficou sem nada. Ganhou roupas de alguns estudantes da faculdade, já conhecidos dele. Voltou para o 94.
No dia em que conversávamos estava feliz, tinha recebido uma carta da irmã, com uma foto do filho que deixou em São Paulo. Dizia morrer de saudades, mas que não voltaria para lá.
A essa altura já estava trabalhando como caseiro para uma senhora que tinha uma casa na rua da faculdade, seu local de trabalho. Saíra do morro para morar na pista.
Gostava de MV Bill, de rap, de musicas que denunciavam a sociedade. Até me emprestou um cd de rap de uma banda ainda pouco conhecida em sampa, mas que segundo ele, prometia muito.
E ainda tinha sonhos.
"Mas eu não vou ficar só por aqui não, saca?Eu vo termina meus estudo, parei na sétima, né? E vou fazer minha vida aqui ó (e apontava para a faculdade logo atrás). Não sei que que eu vou fazer ainda, só sei que não continuo assim."
”
by Júlia Sales
from Developin' ideas
http://juliasales.blogspot.com/2008/07/outro-dia-enquanto-eperava-uma-amiga-do.html
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