domingo, 12 de agosto de 2007

Eus

Tem horas que parece que não sou eu.
Eu de verdade é bem humorada, alegre, canta, sorri, gosta de sentir o vento...
Essa outra eu é chata, se irrita com facilidade.
Aliás, a irritação é um portal muito fácil de atravessar para eu chegar a essa outra eu.
E depois de atravessar eu chata, aparece outra eu que sente um vazio e um aperto no peito e fica se culpando por ter se tornado a eu dois e tentando resgatar a eu um.
A eu três ouve uma música, lê um livro, escreve alguma idiotice.
De repente, uma versão suavizada da eu original reaparece e após algum tempo o ciclo recomeça.

sábado, 11 de agosto de 2007

Raiva

Estava há alguns dias sem vê-lo para que não tomasse o precioso tempo que ele precisava para terminar aquele projeto.
Certa tarde, saí mais cedo do trabalho, passei próximo a uma padaria e vi croissants recém tirados do forno, como sei que é algo que ele gosta, resolvi, então, comprar alguns e fazer-lhe uma surpresa, afinal, se o conheço bem, ele devia estar comendo pão de forma e miojo há pelo menos uma semana.
Com o troco, comprei também um espumante vagabundo em um bar. Ele precisava espairecer! Devia estar sonhando com números.
Fui à pé, sentindo o vento. Coincidentemente usava a blusa branca que ele dizia me deixar ainda mais linda.
Tinha a chave do apartamento. Resolvi entrar silenciosamente e dar-lhe um susto.
Segui para o escritório... Ora! Estava vazio. Será que ele saiu?
Deixei o pacote da padaria sobre a mesinha próxima à porta.
Dirigia-me a cozinha através do corredor com o espumante na mão, quando fui surpreendida com uma cena no quarto.
Instintivamente a garrafa voou e despedaçou-se na parede. Os porta-retratos com nossas fotos e alguns vasos tiveram o mesmo destino.
Estava possuída. Ele tentou acalmar-me. Ela se trancou rapidamente no banheiro. Senti vontade de destruir os dois.
Chutei a cadeira.
Bati a porta.
Saí.
Presenteei o porteiro com os croissants.
Corri para a rua.
Lágrimas rolaram.
Joguei a chave para o alto.
Era a última vez que pisaria ali.